A beleza é harmonia. É um valor imaterial que tem a capacidade de aguçar a sensibilidade de quem a observa e, assim, proporcionar uma experiência estética de encantamento e agradabilidade. É assim que João Braga, historiador de moda e professor da FAAP e da Faculdade Santa Marcelina, define o que é o belo em seu novo livro, "Tenho Dito - Histórias e Reflexões de Moda" (Ed. Estação das Letras e Cores, 128 págs., R$ 38). Recém-lançada, a obra é uma reunião de 15 textos que Braga publicou entre 2007 e 2014 na revista acadêmica dObras[s] sobre luxo, estilistas que marcaram época, brasões, sapatos e muito mais. Na entrevista a seguir, ele conta que a preocupação com a aparência e a maquiagem é algo que sempre existiu na história da humanidade.

 

 

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Adoro Maquiagem - Em um dos textos, você define o luxo por meio de 13 palavras e inclui "beleza" nessa relação, explicando que ela é algo capaz de nos tocar. Nesse sentido, o que te encanta? O que é belo para você? 

João Braga - A beleza é, antes de tudo, um conceito teológico. A origem da palavra vem do sânscrito bel et za e significa "a casa onde Deus brilha". Dessa maneira, é possível compreender que a beleza é algo divino, ou que ao menos te aproxima dele. Entendo-a como uma forma de encantamento e de elevação de espírito, sensações intrínsecas também ao conceito de luxo. Por isso associei as duas palavras. O encantamento é muito particular: ele pode estar em uma paisagem, em uma pessoa, em um objeto, em uma situação - depende de cada um. Para mim, a beleza, no sentido de encanto e elevação de espírito, está ligada à espiritualidade. Sinto que estamos muito grosseiros e, portanto, precisamos lapidar nosso espírito e postura. Há uma frase do escritor russo Fiodor Dostoiévksi que diz assim: "A beleza salvará o mundo". Ela tem esse poder porque é capaz de sensibilizar e um mundo mais sensível é um mundo mais humano.

 

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AM - Em outro momento do livro, você destaca que ao longo da história da moda, a cintura marcada sempre foi algo muito presente no jeito de vestir das mulheres, porque ela é associada ao poder de sedução. Falando de beleza somente, o que podemos dizer que sempre foi possível observar nas mulheres e que tem esse mesmo caráter?

JB - O cuidado com a aparência facial. O esforço de encantar o olhar de quem te observa é da natureza do ser humano. É possível notar isso nas mais diferentes e antigas tribos. E essa busca sempre foi feita por meio da maquiagem. Não falo somente da maquiagem tal qual como a conhecemos hoje, mas também de qualquer pigmento aplicado sobre a pele, inclusive pinturas corporais. No rosto, no entanto, esse movimento é mais visível. O rosto é a parte mais expressiva do nosso corpo, pois ele é capaz de entregar nossas emoções ainda que não falemos sequer uma palavra. É nosso código de linguagem não verbal e a primeira coisa que encanta o outro.

 

AM - Os anos 1920 foram marcados pela praticidade na moda e na beleza, os anos 1950, pelo glamour, e os anos 1970, pelo conceito de unissex. O que define os anos 2000 e 2010?

JB - Ainda precisamos de um pouco de distanciamento para olhar e de fato apontar quais foram as principais características do tempo que vivemos hoje. No entanto, é possível destacar que vivemos uma era de culto não só do corpo, mas também à saúde mental e emocional. Existe um movimento de beleza natural no ar, ao mesmo tempo em que a tecnologia nos brinda com infinitas possibilidades. Na moda, é um mix geral: vale combinar oriente com ocidente, natural com sintético, fazer releituras. São muitas as possibilidades e os caminhos viáveis hoje, e isso devemos à facilidade de comunicação atual. Todos têm acesso a tudo.

 

AM - A semana de moda de São Paulo, principal evento fashion do País, acaba de completar 20 anos. Como você enxerga mais 20 anos de moda e beleza no Brasil?

JB - Eu costumo dizer que não existe história do futuro, então acho arriscado fazer previsões. Gosto mais de lidar com o que já aconteceu e interpretar isso. Mas afirmo que moda e beleza não são manifestações gratuitas. Elas são cultura e conhecimento e retratam com perfeição cada momento do mundo, de uma sociedade. Se vivemos tempos religiosos, a beleza será tida como algo imaterial. Se for uma época de opulência, ela será ligada à ostentação. Se os tempos pedirem economia, certamente a beleza também ganhará contornos mais simples e frugais. Moda e beleza também são retratos e registros da história.